Superdotação na fase adulta: quando sentido de vida e bem-estar se encontram?
- A literatura sobre superdotação tem se concentrado bastante na infância e na adolescência, deixando lacunas importantes sobre como as pessoas com altas habilidades vivenciam a fase adulta. Pouco se sabe sobre quais fatores favorecem o bem-estar subjetivo de adultos superdotados. Tendo isso em vista, o estudo longitudinal de Vötter e Schnell (2019) se dispôs a investigar como o sentido da vida é construído ao longo do tempo e quais recursos psicológicos sustentam uma vida mais satisfatória entre pessoas com essa condição.
- Considerando que a superdotação não conduz automaticamente ao florescimento ou ao sofrimento psicológico, as autoras Bernadette Vötter e Tatjana Schnell foram buscar o que pode trazer bem-estar para essas pessoas, levando em consideração que não são um grupo homogêneo, apesar da condição de superdotadas. Em conclusão, o estudo realizado na Áustria aponta que depende de como o potencial é integrado à vida concreta, às relações e à contribuição social. Não basta apenas inteligência ou desempenho. Depende do significado vivido, da contribuição ao outro e dos recursos emocionais para sustentar esse caminho ao longo do tempo.
- As conclusões do estudo foram publicadas no artigo “Bringing Giftedness to Bear: Generativity, Meaningfulness, and Self-Control as Resources for a Happy Life Among Gifted Adults” (em tradução livre: Colocando a superdotação em ação: Generatividade, sentido de vida e autorregulação como recursos para uma vida feliz entre adultos com superdotação), de 2019 (disponível no link ao final deste texto).
Para identificar os fatores de bem-estar, a pesquisa utilizou um desenho longitudinal, com dois momentos de coleta separados por aproximadamente quatro anos, envolvendo 152 pessoas divididas em dois grupos:
- 100 pessoas adultas com QI maior a 130 (definidas no estudo como “pessoas intelectualmente superdotadas”), membros da Mensa, com idade média de 43 (variação de ± 9 anos), sendo 55% mulheres, e
- 52 pessoas adultas superdotadas com alto desempenho acadêmico, laureadas com a mais alta distinção acadêmica na Áustria, com idade média de 57 (variação de ± 14 anos), sendo 29% mulheres.
Foram analisadas quatro variáveis principais e a relação entre elas: generatividade e sentido de vida (no primeiro momento) e bem-estar subjetivo e autorregulação (no segundo momento).
Generatividade, significado e autorregulação
Mas o que é generatividade? É um termo da psicologia, caracterizada como a sétima fase do desenvolvimento psicossocial do adulto, típica da meia-idade (aproximadamente de 40 a 65 anos), na teoria de Erik Erikson. A generatividade está focada na necessidade de “criar” ou nutrir coisas que superem o próprio indivíduo, como filhos, mentoria, produtos artísticos/intelectuais ou melhorias na comunidade, de forma a deixar um legado duradouro e promover o bem-estar das gerações futuras. Para quem tem superdotação, a generatividade pode ser particularmente relevante, pois oferece caminhos concretos para transformar potencial intelectual em significado vivido, reduzindo sentimentos de inutilidade, estagnação ou não pertencimento, muito comuns entre as pessoas superdotadas .
O conceito de sentido de vida (“meaningfulness”) também ocupa papel central no estudo. Baseado na tradição da logoterapia, de Viktor Frankl, e em modelos contemporâneos, o sentido de vida é entendido como a experiência de que a vida é coerente, significativa, orientada e marcada por pertencimento. Evidências empíricas mostram que níveis elevados de sentido de vida estão associados a maior bem-estar psicológico, satisfação com a vida e menor incidência de depressão, ansiedade e estresse. Por outro lado, a ausência desse sentido pode levar a crises existenciais, associadas a maior risco de adoecimento mental e até suicídio.
Os resultados do estudo de Vötter e Schnell confirmaram que:
- Em ambos os grupos, a generatividade aumenta o sentido de vida, que por sua vez prediz maior bem-estar subjetivo ao longo do tempo. Ou seja, não é a generatividade em si que gera bem-estar diretamente, mas o fato de ela produzir uma vida percebida como significativa.
Entretanto, surgiram diferenças importantes entre os dois grupos:
- Entre as pessoas intelectualmente superdotadas, o impacto positivo do sentido de vida sobre o bem-estar foi mais forte quando combinado com altos níveis de autorregulação emocional e comportamental.
- Já entre as pessoas adultas superdotadas com alto desempenho acadêmico, a autorregulação teve efeito direto sobre o bem-estar, e não atuou como moderador da relação entre sentido de vida e bem-estar.
Esses achados sugerem que, para pessoas superdotadas intelectualmente, ter propósito, apesar de necessário, não é suficiente para sua felicidade. Elas precisam também dispor de recursos internos de autorregulação emocional e comportamental para transformar sentido em bem-estar.
Nesse sentido, estimular experiências de generatividade — como mentorias, ensino, voluntariado ou engajamento comunitário — pode ser uma estratégia potente para fortalecer o sentido de vida em pessoas adultas com superdotação. Não obstante, intervenções que desenvolvam autorregulação são necessárias para que esse efeito se reflita em bem-estar/felicidade, quando se trata de “pessoas intelectualmente superdotadas” que não estão entre aquelas com alto desempenho acadêmico.
Contrariamente, a autorregulação não aumentou a associação positiva entre sentido de vida e bem-estar subjetivo entre as pessoas superdotadas com alto desempenho acadêmico. Os resultados indicaram que o bem-estar subjetivo desse subgrupo estava fortemente relacionado à autorregulação.
O estudo conclui que, considerando seu alto desempenho e o bom ajuste aos padrões educacionais (desde as fases iniciais da escolarização), esses resultados estão em consonância com achados recentes que sugerem uma associação positiva entre autorregulação e sucesso acadêmico (por exemplo, Tangney et al., 2004; Duckworth e Seligman, 2005), bem como felicidade (por exemplo, Cheung et al., 2014).
O texto original da publicação pode ser acessado neste link: https://abre.ai/ouOr