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Superdotação na fase adulta: quando sentido de vida e bem-estar se encontram?

  • A literatura sobre superdotação tem se concentrado bastante na infância e na adolescência, deixando lacunas importantes sobre como as pessoas com altas habilidades vivenciam a fase adulta. Pouco se sabe sobre quais fatores favorecem o bem-estar subjetivo de adultos superdotados. Tendo isso em vista, o estudo longitudinal de Vötter e Schnell (2019) se dispôs a investigar como o sentido da vida é construído ao longo do tempo e quais recursos psicológicos sustentam uma vida mais satisfatória entre pessoas com essa condição.

 

  • Considerando que a superdotação não conduz automaticamente ao florescimento ou ao sofrimento psicológico, as autoras Bernadette Vötter e Tatjana Schnell foram buscar o que pode trazer bem-estar para essas pessoas, levando em consideração que não são um grupo homogêneo, apesar da condição de superdotadas. Em conclusão, o estudo realizado na Áustria aponta que depende de como o potencial é integrado à vida concreta, às relações e à contribuição social. Não basta apenas inteligência ou desempenho. Depende do significado vivido, da contribuição ao outro e dos recursos emocionais para sustentar esse caminho ao longo do tempo.

 

  • As conclusões do estudo foram publicadas no artigo “Bringing Giftedness to Bear: Generativity, Meaningfulness, and Self-Control as Resources for a Happy Life Among Gifted Adults” (em tradução livre: Colocando a superdotação em ação: Generatividade, sentido de vida e autorregulação como recursos para uma vida feliz entre adultos com superdotação), de 2019 (disponível no link ao final deste texto).

 

Imagem de Aziz Acharki, na Unsplash.
Imagem de Aziz Acharki, na Unsplash.

Para identificar os fatores de bem-estar, a pesquisa utilizou um desenho longitudinal, com dois momentos de coleta separados por aproximadamente quatro anos, envolvendo 152 pessoas divididas em dois grupos:

 

Foram analisadas quatro variáveis principais e a relação entre elas: generatividade e sentido de vida (no primeiro momento) e bem-estar subjetivo e autorregulação (no segundo momento). 

 

Generatividade, significado e autorregulação

Mas o que é generatividade? É um termo da psicologia, caracterizada como a sétima fase do desenvolvimento psicossocial do adulto, típica da meia-idade (aproximadamente de 40 a 65 anos), na teoria de Erik Erikson. A generatividade está focada na necessidade de “criar” ou nutrir coisas que superem o próprio indivíduo, como filhos, mentoria, produtos artísticos/intelectuais ou melhorias na comunidade, de forma a deixar um legado duradouro e promover o bem-estar das gerações futuras. Para quem tem superdotação, a generatividade pode ser particularmente relevante, pois oferece caminhos concretos para transformar potencial intelectual em significado vivido, reduzindo sentimentos de inutilidade, estagnação ou não pertencimento, muito comuns entre as pessoas superdotadas .

O conceito de sentido de vida (“meaningfulness”) também ocupa papel central no estudo. Baseado na tradição da logoterapia, de Viktor Frankl, e em modelos contemporâneos, o sentido de vida é entendido como a experiência de que a vida é coerente, significativa, orientada e marcada por pertencimento. Evidências empíricas mostram que níveis elevados de sentido de vida estão associados a maior bem-estar psicológico, satisfação com a vida e menor incidência de depressão, ansiedade e estresse. Por outro lado, a ausência desse sentido pode levar a crises existenciais, associadas a maior risco de adoecimento mental e até suicídio.

 

Os resultados do estudo de Vötter e Schnell confirmaram que:

  • Em ambos os grupos, a generatividade aumenta o sentido de vida, que por sua vez prediz maior bem-estar subjetivo ao longo do tempo. Ou seja, não é a generatividade em si que gera bem-estar diretamente, mas o fato de ela produzir uma vida percebida como significativa.
 

Entretanto, surgiram diferenças importantes entre os dois grupos:

  • Entre as pessoas intelectualmente superdotadas, o impacto positivo do sentido de vida sobre o bem-estar foi mais forte quando combinado com altos níveis de autorregulação emocional e comportamental.
  • Já entre as pessoas adultas superdotadas com alto desempenho acadêmico, a autorregulação teve efeito direto sobre o bem-estar, e não atuou como moderador da relação entre sentido de vida e bem-estar.
 

Esses achados sugerem que, para pessoas superdotadas intelectualmente, ter propósito, apesar de necessário, não é suficiente para sua felicidade. Elas precisam também dispor de recursos internos de autorregulação emocional e comportamental para transformar sentido em bem-estar. 

 

Nesse sentido, estimular experiências de generatividade — como mentorias, ensino, voluntariado ou engajamento comunitário — pode ser uma estratégia potente para fortalecer o sentido de vida em pessoas adultas com superdotação. Não obstante, intervenções que desenvolvam autorregulação são necessárias para que esse efeito se reflita em bem-estar/felicidade, quando se trata de “pessoas intelectualmente superdotadas” que não estão entre aquelas com alto desempenho acadêmico. 

Contrariamente, a autorregulação não aumentou a associação positiva entre sentido de vida e bem-estar subjetivo entre as pessoas superdotadas com alto desempenho acadêmico. Os resultados indicaram que o bem-estar subjetivo desse subgrupo estava fortemente relacionado à autorregulação. 

 

O estudo conclui que, considerando seu alto desempenho e o bom ajuste aos padrões educacionais (desde as fases iniciais da escolarização), esses resultados estão em consonância com achados recentes que sugerem uma associação positiva entre autorregulação e sucesso acadêmico (por exemplo, Tangney et al., 2004; Duckworth e Seligman, 2005), bem como felicidade (por exemplo, Cheung et al., 2014).

 

O texto original da publicação pode ser acessado neste link: https://abre.ai/ouOr

 

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