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Mascaramento na superdotação: o custo de esconder quem se é!

  • Para se encaixar num ambiente social que não lida bem com traços característicos da superdotação, pessoas com altas habilidades aprendem a suprimir, modular ou disfarçar sua forma de ser, como sua intensidade emocional, seus interesses atípicos, sua (hiper)velocidade de raciocínio, sua forma de se expressar ou a profundidade dos seus questionamentos.

 

  • Não é uma escolha consciente e raramente começa na idade adulta. O mascaramento social é construído camada por camada desde a infância, como mecanismo de defesa, e se automatiza com o tempo. Inicialmente, essa estratégia comportamental também chamada mascaramento (ou camuflagem) facilita a vida em sociedade, mas as consequências pessoais são inevitáveis e muito negativas. A máscara costuma funcionar tão bem que a própria pessoa esquece quem está embaixo dela, gerando travas no crescimento e no desenvolvimento de potenciais, perda de identidade, e síndrome do impostor.
Imagem de Rach Teo, na Unsplash.
Imagem de Rach Teo, na Unsplash.

Como o mascaramento se desenvolve na superdotação

  • Na escola: A criança com superdotação percebe que suas perguntas são “demais”, que seu ritmo constrange os colegas, que seu vocabulário intimida. Ela aprende a segurar a mão antes de levantar. Aprende a rir das piadas que não acha graça. Aprende que ser diferente tem custo social. Para evitar rejeição, bullying ou isolamento, ela camufla sua intensidade.
  • Na adolescência: A pressão do grupo atinge o pico: 65% das meninas superdotadas já escondem deliberadamente seus talentos nessa fase (Buescher & Higham, 1987), enquanto isso acontece em 15% dos meninos. Eles acabam ocultando suas habilidades para se encaixar com os amigos ou evitar atenção indesejada, passando a imitar comportamentos considerados “típicos”. Quando jovens, costumam fingir não saber algumas coisas para dar espaço aos outros e também minimizar suas conquistas, para não despertar inveja.
  • Na vida adulta: A pessoa com superdotação já calibra sua forma de falar conforme quem está presente e segura referências ou comentários que poucos iriam entender. Também simula interesse em conversas rasas e não corrige informações erradas para não constranger. Além disso, pode demorar mais do que o necessário para entregar algo, porque entregar rápido demais gera mal-estar nos pares.
  • No trabalho: Aprende a não fazer perguntas que evidenciem que processou o briefing inteiro enquanto os outros ainda liam a primeira página. E, na gestão, aprende a “deixar o time chegar na resposta”, quando já sabe o que deve ser feito.

 

No caso das mulheres superdotadas, a camuflagem social se cruza com o condicionamento de gênero. Elas recebem duas instruções sociais simultâneas e contraditórias: seja capaz e não seja ameaçadora. Aquelas que vivenciaram hostilidade ao se destacar — seja na escola, no trabalho ou em grupos sociais — aprendem que a visibilidade tem custo. A estratégia quase sempre é a mesma: para sobreviver socialmente, elas escondem suas capacidades. Elas tendem a falar menos, perguntar menos, sentir menos abertamente, inclusive nos seus relacionamentos afetivos.

Imagem de Dmitry Ratushny, na Unsplash.
Imagem de Dmitry Ratushny, na Unsplash.

O preço psicológico do mascaramento em pessoas superdotadas
A camuflagem social funciona muito bem, no curto prazo, reduzindo atritos e produzindo aceitação. Por isso é uma estratégia bastante perigosa. Quando a máscara é usada por tempo suficiente, a pessoa começa a confundir a máscara com ela mesma. Não sabe mais distinguir o que genuinamente pensa do que aprendeu a dizer, o que gera uma perda de identidade.

 

Na prática, a pessoa acaba funcionando em dois registros paralelos: o interno (o que de fato pensa, sente e processa) e o externo (o que apresenta ao mundo), mesmo sem ter clareza sobre isso. A longo prazo, pode sofrer com esgotamento/burnout, ansiedade e até quadros de depressão. Porque o esforço constante para frear o raciocínio, controlar o entusiasmo e se adequar exige um alto custo cognitivo e emocional.

 

Para completar, seu crescimento genuíno fica travado, já que a pessoa que mascara para pertencer deixa de receber feedback real sobre quem é. Seu ambiente é calibrado para uma versão menor de si e as respostas são dadas para essa versão menor. Isso provoca um isolamento paradoxal: ela é aceita, mas não é conhecida. Mesmo sendo o centro da festa, pode se sentir completamente sozinha. Além disso, esse comportamento alimenta a síndrome do impostor: como o sucesso é atribuído à máscara (não à pessoa real), ele nunca parece legítimo. “Se me conhecessem de verdade…” é o mascaramento falando.

 

Como reverter o mascaramento social
O ponto de partida para reverter o mascaramento é nomear o que está acontecendo. Muitas pessoas superdotadas adultas passaram décadas usando sua máscara sem nunca ter tido uma palavra para descrevê-la. É central reconhecer que aquela “humildade” crônica, aquele reflexo de segurar a resposta, aquela habilidade de parecer menos não são traços de personalidade, mas comportamento aprendido. Porque o que tem nome passa a ser visto e pode deixar de ser automático.


O segundo movimento é ambiental. A recuperação começa, na prática, quando a pessoa encontra espaços onde não precisa calibrar constantemente o que é. São ambientes, grupos ou relações em que a intensidade não precisa ser gerenciada, mas pode simplesmente existir. Não é possível eliminar os contextos que exigem adaptação, porque eles são parte da vida. Mas é importante garantir que não sejam somente eles os espaços por onde se circula.


O terceiro movimento é o mais delicado: reaprender a quem pertence a voz que critica. Boa parte da autocensura que a pessoa superdotada interpreta como prudência ou modéstia é, na verdade, a voz internalizada de alguém que, em algum momento, puniu sua intensidade, sua sapiência, sua profundidade. Talvez os pais, professores, um grupo de colegas ou um parceiro. Essa não é a voz própria, ela foi emprestada, mas não precisa permanecer. Reconhecer a origem não apaga o efeito imediato, mas desfaz parte do poder que ela ainda exerce. E assim se começa uma virada de chave.

Entretanto, essa movimentação toda só poderá acontecer após um passo inicial: identificar a superdotação. Saber que se é uma pessoa superdotada. Sem esse reconhecimento, a virada de chave não acontece, porque é impossível nomear o mascaramento sem saber o que se está mascarando. É por isso que a disseminação do conhecimento sobre superdotação importa: cada pessoa que compreende essa condição é um elo a mais na cadeia que pode levar à identificação de outra. Muitos adultos superdotados chegaram à própria identificação porque alguém ao seu redor — um amigo, um familiar, um profissional de saúde ou de educação — teve acesso à informação certa na hora certa. Quanto mais pessoas conhecerem sobre altas habilidades, melhor para todos.

 

 

 

 

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