Descompasso e mascaramento: a busca de Lucía por um lugar no grupo
- Durante sua infância, a uruguaia Lucía sentia que era melhor se esconder em sala de aula, para não destoar tanto dos colegas. A escola não era um lugar estimulante, porque o conteúdo estava aquém do seu interesse e do seu potencial. Mesmo tentando mascarar sua capacidade acima da média, não conseguia fazer amigos. E, quando se pronunciava, “gerava problema”.
“Por não saber da minha superdotação [descoberta em 2021, aos 26 anos de idade], eu fui muito discriminada na escola, porque eu não só estava em um nível intelectual acima dos meus companheiros, como também em nível emocional. Eu me sentia cinco ou seis anos mais velha que os colegas de sala. Não tinha como ter amigos, porque eles não me entendiam.
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Sofri muito bullying. Nunca fui uma estudante de destaque no modelo típico, porque eu me entediava muito nas aulas. Dormia com frequência. Durante muito tempo, na escola, eu não falava. Achava que era totalmente desnecessário. Depois, comecei a falar demais. Estudava em uma escola católica de uma cidade pequena do interior, e eu fazia perguntas a respeito da religião que incomodavam muito. Era como questionar as crenças dos meus companheiros de classe. Por isso também era muito discriminada, me tiravam da sala.
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Na minha cidade, não tinha muita coisa. Eu ia bem no acadêmico, mas eu queria estudar cozinha, queria estudar química, queria coisas diferentes e não podia, no lugar onde eu estava. Eu jogava xadrez aos seis anos e não tinha com quem jogar. Queria livros, porque na minha casa só tinha a Bíblia, e, depois de ver o filme ‘Matilda’, fui à biblioteca, decidida: ‘vou fazer a mesma coisa que ela’. Sem imaginar que isso seria um problema, eu fui sozinha até lá e não me permitiram retirar nada, porque eu era muito novinha.
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Lembro que quando eu tinha 9 anos, chamaram minha mãe na escola pra dizer que não desse tanta informação pra mim quando estivesse fazendo os trabalhos da escola. Minha mãe respondeu: ‘Mas eu não ajudo a Lucía com as tarefas. Ela faz tudo sozinha. Mas o que aconteceu? Ela disse alguma coisa feia?’ A professora disse: ‘Não, não disse. Mas ela complica a minha aula.’ E continuou quando minha mãe pediu pra explicar melhor o problema: ‘Ela diz coisas que nem eu entendo. Então as outras crianças vêm me perguntar e eu não sei como explicar pra elas’.
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Daí comecei a esconder minhas notas. Quando recebia prova corrigida, eu tampava a nota para meus colegas não verem quanto eu tinha tirado. Porque, se era uma nota alta, me diziam coisas feias e, se era uma nota baixa, tinha que escutar ‘o que aconteceu?’. Eu também tirava notas baixas, porque em algumas matérias, eu dormia.
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A escola me ofereceu a oportunidade de aceleração. Minha mãe recusou, porque eu ia ‘sofrer na mão dos mais velhos’. Mas era o que eu mais queria, e não me permitiram. E a escola tampouco me deu material extra. Até me deram mais atividades, mas eram 10 exercícios sobre a mesma coisa. E o que eu precisava era de atividades com conteúdo mais profundo.”
- Esse descompasso se repetiu também fora da escola e reforçou em Lucía a ideia de que ela não podia fazer parte de um grupo.
“Se você demonstra muito sua capacidade, acham que você tem que se virar sozinha ou te transformam em professora da sala. Ou, em outros casos, te colocam de lado. É uma exclusão muito feia. Quando decidi aprender a tocar piano, me senti de novo na escola. Eram grupos com três pessoas, mas só estive com elas duas vezes, porque o professor logo me tirou do grupo. Disse que eu ‘descoordenava a aula’, e passou a me dar aulas particulares. Mas eu queria estar com os outros, então deixei o piano. Eu acredito que o professor podia me dar espaço para aprender mais, com mais profundidade do que os outros, mas também preservar esse espaço comum. Não deviam me isolar do grupo. Minha ideia era aprender com os outros, eles também podiam me ajudar a aprender.
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Minha raiva, depois de descobrir a superdotação, foi de que eu poderia ter ido muito mais longe, e não ter passado tantos maus bocados por me sentir tão diferente, por sentir que tinha problemas para me relacionar com os outros.
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[Depois da identificação] digamos que tudo terminou de se encaixar. A partir daí foi um processo mais complicado para as pessoas ao meu redor, porque elas não entendiam muito. Para mim, depois de ter passado por tantos diagnósticos [transtorno de ansiedade, TDAH e TEA], o que mais me custou foi me livrar deles do que incorporar a superdotação. Esses diagnósticos errados fazem muito mal pra gente. Eu acho que faz muito mal mandar alguém pro psiquiatra simplesmente porque não é como os colegas de sala.”
- Mesmo sem ter sido identificada durante todo o Ensino Básico, sempre se sentiu muito pressionada pela família a ter bom desempenho acadêmico. Mas a habilidade incomum com números fez com que a família focasse somente nesse aspecto. Escutava dos pais, que viam nitidamente seu alto potencial: ‘você tem que fazer alguma coisa com isso’.
- Ela fez! Fez química e, com 23 anos, já tinha mestrado na área. Somente aos 25 anos teve contato com as expressões artísticas. Quando se instaurou a pandemia, começou a pintar, vendeu muitos quadros e sentiu outro tipo de raiva, por nunca ter recebido estímulo nessa área antes. Foi como um ano sabático que lhe trouxe muita satisfação, mas isso não a afastou da sua área, só fez com que percebesse que a química era sua verdadeira paixão. E aos 26 anos iniciou seu doutorado.
- Após ser identificada, foi incluída em um grupo de WhatsApp de pessoas adultas superdotadas e se sentiu muito aceita. “Todos seguiam a conversa no mesmo ritmo, todos contribuíam com coisas novas e todos somavam. Nunca senti que pertencia tanto a um grupo como àquele. Acho super importante que nos coloquem em contato com gente que nos possa entender”, conclui.
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