Amores atípicos: relações amorosas e superdotação
- A intensidade emocional, a excitabilidade e a voracidade intelectuais e a hipersensibilidade, que tornam a pessoa superdotada tão rica por dentro, são as mesmas características que podem complicar — e muito — os seus relacionamentos amorosos. Imi Lo, psicóloga especializada em superdotação na fase adulta, destaca que o padrão recorrente de se sentir “fora de sintonia com o mundo” fica mais potencializado quando o assunto é amor. Em artigo publicado no seu site, ela alerta que, mais do que em qualquer âmbito, os relacionamentos amorosos reforçam essa dessincronização com força brutal. Para apoiar as pessoas com altas habilidades e aquelas que se relacionam com elas, Imi Lo reuniu alguns pontos de atrito nesses relacionamentos, trazendo dicas sobre como lidar com isso.
- Tédio, impaciência, solidão
Um dos maiores desafios dos relacionamentos de pessoas superdotadas é o tédio. Nada a ver com o tédio preguiçoso de quem não tem o que fazer. As pessoas superdotadas são ávidas por aventuras e exploração – física, psicológica, intelectual, visual e sensorial —, e quando quem está ao seu lado não acompanha o ritmo ou a profundidade emocional, vem o tédio existencial e elas se sentem sozinhas. Junto ao tédio vem a impaciência, por conta de conversas rasas, da falta de curiosidade do outro e da sensação de ser sempre o “líder” que carrega o relacionamento.
A pessoa superdotada, que precisa de estímulo constante, começa a se sentir presa. O parceiro do relacionamento, por sua vez, se sente sobrecarregado por tanto entusiasmo e demanda. Resumo da situação: a convivência pode virar um esforço para ambos e a conexão se perde.
- Dores passadas estão presentes
Toda uma vida de incompreensão, julgamentos e rótulos deixa marcas. A pessoa adulta com altas habilidades frequentemente carrega consigo vivências negativas que ainda machucam na atualidade: a criança que era diferente na escola, o adolescente que nunca se encaixava e o adulto que continua se policiando para não assustar os outros.
Os relacionamentos íntimos são onde as antigas feridas e necessidades vêm à tona. Pequenos gestos do parceiro podem disparar reações desproporcionais, porque o passado ainda dói. Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo para não destruir o que é bom com o peso das experiências passadas.
- Necessidade de muito espaço a sós
O superdotado tem uma vida interior rica e exigente. Precisa de solidão para criar, processar, criar e existir. O problema é que parceiros que não compreendem essa dinâmica podem interpretar a busca por espaço como rejeição, desinteresse ou egoísmo, quando, na verdade, é uma necessidade de nutrição interna.
A negociação desse espaço dentro do casal é um dos campos mais delicados. E muitas vezes, antes de conversar sobre isso com o parceiro, é preciso ter essa conversa consigo mesmo: entender que sua necessidade de solidão é legítima para poder comunicá-la sem culpa.
- Busca por vínculos profundos
Para ir além de trocas superficiais, é preciso tempo e dedicação, mas, na nossa cultura moderna de encontros, com milhões de opções a um clique de distância, as pessoas estão sempre em busca da próxima novidade.
A busca por propósito e significado em tudo o que faz, assim como a busca por relacionamentos autênticos faz com que a pessoa com altas habilidades atribua significados e pesos diferentes do corriqueiro ao sexo ou aos encontros amorosos. “O problema é que seus valores muitas vezes não são respeitados no mundo. A realidade fica aquém das suas expectativas, e o que você considera ‘normal’ é visto como ‘idealista demais’”, pontua Imi Lo.
- A habilidade de captar tudo no ar
Muitos problemas que pessoas com altas habilidades enfrentam em relacionamentos amorosos vêm do fato de que elas naturalmente percebem inconsistências, absurdos e desonestidade nas interações humanas. Portanto, quando o parceiro não é verdadeiro, elas conseguem sentir.
Se, para as pessoas com essa habilidade, absorver cada sutileza emocional no ambiente cria uma sobrecarga de informações e é desgastante, para o parceiro pode se tornar uma ameaça se sentir constantemente “desmascarado”, principalmente quando ele rejeita ou não reconhece o que sente.
- Consequências de ser “parentificado”
A parentificação é uma “inversão de papéis” entre pais e filhos em casa. Muitas pessoas com superdotação são tidos como confidentes, conselheiros ou cuidadores emocionais de seus pais, ou são chamados a desempenhar o papel de cuidar de seus irmãos. Essa vivência afeta nossos padrões de apego e a forma como os relacionamentos são abordados na fase adulta.
Quando não passaram por isso, mas viveram dinâmicas familiares abusivas ou instáveis na infância, tendem a manter um estado de hipervigilância com as nuances das motivações e sentimentos alheios. Se o(a) parceiro(a) demonstra vulnerabilidades ou precisa de cuidados físicos ou emocionais, a pessoa superdotada pode pagar um custo pessoal para isso, deixando seus interesses e outros relacionamentos familiares e amizades de lado. Essa postura, entretanto, não é positiva, como possa parecer, porque prejudica a autoestima e o senso de identidade de ambos.
- Tendência ao “exagero”
Devido à sua rapidez e competência naturais, as pessoas com superdotação tendem a assumir uma quantidade de responsabilidades acima da média no trabalho, em casa e também nos seus relacionamentos.
Apesar da boa intenção de fazer tudo da “melhor maneira”, acabam se sobrecarregando pela dificuldade de dividir tarefas e de aceitar ver outras pessoas cometendo erros ou não desempenhando suas funções com tanta dedicação e qualidade.
O que fazer com tudo isso?
Relacionamentos são desafiantes para todo mundo. Como se vê, para as pessoas superdotadas, essas relações carregam camadas extras de complexidade. Mas, a mesma profundidade que complica também é o que torna esse amor atípico, quando acontece de verdade, algo singular e incrível. Para ajudar a lidar tudo isso, Imi Lo recomenda:
1. Diferencie um “parceiro de vida” de uma “alma gêmea”
Imi Lo sugere, em especial, uma distinção importante de se fazer: separar a figura do “parceiro(a) de vida” da figura da “alma gêmea”. Ela defende que esperar que uma única pessoa preencha todas as dimensões — intelectual, emocional, espiritual e sensorial — é um caminho provável para a decepção.
A especialista lembra que é possível distribuir as necessidades de forma mais “realista e generosa”: almas gêmeas também podem ser amigos, professores, até mesmo familiares e filhos, que atendem uma ou outra diferente dimensão mencionada. A fixação por encontrar a alma gêmea romântica pode bloquear caminhos com um(a) parceiro(a) de vida.
Imi Lo indica que se faça uma escolha consciente pelo caminho emocional desejado para evitar ressentimentos, conflitos internos, frustrações e desperdício de energia. Tomar essa decisão depende de boa dose de autoconhecimento, que permite entender o que realmente cada um precisa e o que mais valoriza, assim como de habilidade para comunicar suas necessidades. E isso muda completamente a qualidade dos vínculos construídos.
2. Observe quando você está se protegendo demais
Experiências de dor e decepção podem levar à criação de barreiras emocionais que parecem oferecer segurança, mas podem acabar gerando isolamento, vazio ou a tendência a intelectualizar tudo demais. Reconhecer esses mecanismos de defesa e romper esses escudos com compaixão é o primeiro passo para voltar a se abrir para vínculos saudáveis.
Relacionamentos têm seus riscos e perigos, mas, geralmente, são jornadas que valem a pena serem vividas.
3. Conheça a si mesmo e se aceite plenamente
Quem passou a vida ouvindo que era “intenso demais” ou “sensível demais” pode acabar rejeitando partes de si mesmo e ter aprendido a trocar autenticidade por segurança, passando a se esconder. É importante reconhecer e aceitar seu lado sombra e luz, para permitir se amar por inteiro, fortalecer a autoestima e tornar possível construir relacionamentos mais genuínos.
“A única maneira de encontrar pessoas que correspondam à sua intensidade é se mostrando com ela. Por favor, não prive o mundo da sua luz — alguém como você também está procurando por você, e só poderá encontrá-lo(a) se você se mostrar sendo quem você é”, argumenta a psicóloga.
4. Pare de tentar controlar o resultado e viva o presente
No amor, nem tudo depende de esforço ou planejamento. Em vez de tentar se manter no controle para definir o futuro, vale cultivar a abertura e curiosidade pelo que se apresenta e gratidão pelo momento presente. Cada momento é único.
Não deixe de agir em direção ao que deseja, mas procure não se prender à necessidade de um resultado específico. Não é possível saber o que acontecerá; controlar é uma ilusão. Muitas vezes, o inesperado e até indesejado pode se revelar a porta de entrada para muitas coisas maravilhosas, assim como algo que pareceu encantador a princípio, pode se tornar um inferno.
“Muitas vezes, desejamos o que não precisamos e negligenciamos as dádivas que estão bem diante de nossos olhos. Devemos lembrar que cada momento da vida, incluindo a espera, a solidão, a separação, a saudade e a tristeza, é uma peça gloriosa e essencial da trama da vida”, reforça Imi Lo.
E ela encerra seu artigo dizendo: “Se eu pudesse lhe dar apenas um conselho, minha querida alma sensível, seria para nunca, jamais sacrificar sua vitalidade e paixão por uma falsa sensação de segurança.”
Imi Lo é uma cidadã do mundo, com formação na Austrália, Inglaterra, Hong Kong, Taiwan e Estados Unidos. Psicóloga com especialização em Saúde Mental, Budismo e Culturais Globais, tem três livros publicados “Emotional Sensitivity and Intensity” (2018, traduzido em oito línguas), “The Gift of Intensity” (2021) e “The Gift of Empathy” (2025), pela Editora Hachette, nenhum deles foi publicado em português ainda.
- Leia o original na íntegra, aqui: https://eggshelltherapy.com/relationship-struggles/