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O cérebro superdotado visto pela neurociência

  • Quanto mais a neurociência avança, mais é possível enxergar como é e funciona o cérebro de neurodivergentes em relação ao chamado “padrão”. A revisão mais recente a respeito das características cerebrais associadas à superdotação foi publicada em outubro de 2025, analisando 48 pesquisas e identificando consensos entre elas: “O cérebro superdotado: uma revisão da literatura neurocientífica”, de Maurício Francisco Schiehl. 
 
  • Ferramentas como  ressonância magnética  funcional (fMRI),  tomografia  por  emissão  de  pósitrons  (PET)  e  eletroencefalograma (EEG) atestam que o cérebro com superdotação é substancialmente diferente. Além disso, também está comprovado que pelo menos a maior parte do cérebro com altas habilidades tem a maioria de suas diferenças antes que ele próprio ou seu ambiente consiga moldá-las.
 
  • A lista de consensos encontrados é expressiva: maior volume cerebral, maior volume regional e quantidade de massa cinzenta, maior espessura do córtex, maior quantidade de massa branca, ativação de mais áreas do cérebro para a mesma atividade, maior conectividade entre as áreas do cérebro, maior eficiência energética e maior atenção.  
Imagem de Bhautik Patel, na Unsplash.
Imagem de Bhautik Patel, na Unsplash.
  • Vale lembrar que revisões desse tipo não são simples e trazem grandes desafios. Uma das maiores dificuldades com as amostras, nesse caso, está na “falta de uma  definição unívoca” dessa condição. Os outros desafios ficam por conta da falta de  uniformidade nas metodologias, nas amostras e nos critérios de seleção da amostra de cada pesquisa, dificultando comparações ideais entre os estudos.
 
  • A revisão também chama a atenção para a forma restrita como ainda se vê e se pesquisa sobre superdotação, associando a condição à inteligência (QI: quociente de inteligência) acima da média e deixando de lado todo o funcionado neuropsicológico envolvido. As características emocionais e sensoriais complexas ainda não são suficientemente — e precisam ser — exploradas pela neurociência. 
 

Seguem abaixo consensos encontrados entre os estudos: 
(Para ler a publicação na íntegra, clique aqui)

 

MAIOR VOLUME CEREBRAL

As pessoas superdotadas têm maior volume cerebral. Essa é a conclusão mais bem estabelecida da neurociência sobre a superdotação. Mas levanta questionamentos: todas as áreas são uniformemente maiores ou o cérebro do superdotado é maior em áreas específicas? Apesar da heterogeneidade metodológica das pesquisas impedir a identificação precisa de todas as regiões envolvidas, os achados confirmam que os indivíduos superdotados apresentam maior volume em áreas cerebrais específicas. Até o momento, existe uma correlação comprovada entre o volume cerebral e a inteligência verbal e também entre a maior densidade de massa cinzenta no cerebelo com habilidades visuais aprimoradas.

 

MAIOR ESPESSURA DO CÓRTEX
A hipótese da maior espessura do córtex em superdotados foi testada em muitas diferentes pesquisas, conduzidas com diferentes metodologias e amostras que corroboram essa conclusão, permitindo um alto grau de confiança.

 

Imagem de Bhautik Patel, na Unsplash.
Imagem de Bhautik Patel, na Unsplash.

MAIOR QUANTIDADE DE MASSA BRANCA

A literatura neurocientífica também estabelece uma correlação significativa entre a maior quantidade de massa branca e a superdotação, apontando para uma correlação entre inteligência e espessura do corpo caloso, especialmente as regiões posteriores. Várias pesquisas sobre esse aspecto ainda convergem com as que estabelecem ativação de mais áreas do cérebro para a mesma atividade e maior conectividade.

 

ATIVAÇÃO DE MAIS ÁREAS DO CÉREBRO PARA A MESMA ATIVIDADE

Os estudos mostraram que a atividade cerebral para atividades simples era exatamente a mesma em relação ao grupo de controle. No entanto, em tarefas de rotação mental, os superdotados recrutaram um número maior de áreas cerebrais e apresentaram uma ativação mais intensa nas regiões comuns a ambos os grupos. As tarefas de rotação mental são exercícios cognitivos que medem a capacidade de imaginar e girar mentalmente objetos em diferentes orientações. Enquanto os autores desses estudos concluíram que há uma associação positiva entre inteligência e ativação de muitas diferentes áreas cerebrais, isso os levou a interpretar também que a inteligência superior não deriva do recrutamento de mais áreas, mas sim da ativação mais intensa da rede parieto-frontal, especialmente no córtex parietal posterior. 

 

MAIOR CONECTIVIDADE ENTRE AS ÁREAS DO CÉREBRO
Foi possível constatar que as pessoas com altas habilidades apresentaram maior conectividade intra-hemisférica frontoparietal, bem como maior conectividade inter-hemisférica frontal entre o córtex pré-frontal dorsolateral e o córtex pré-motor.

MAIOR EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
A medição de taxa metabólica de glicose (GMR) antes e após um jogo de Tetris e de aplicação das Matrizes Progressivas Avançadas de Raven (um dos testes de QI) demonstrou que os indivíduos com maior QI utilizaram menos glicose para realizar as mesmas tarefas que pessoas do grupo de controle. Isso permite concluir que o cérebro superdotado é mais eficiente no consumo de recursos, pois tem menor consumo para tarefas mais complexas. 

 

MAIOR ATENÇÃO
Os estudos psicométricos já tinham claro que os superdotados têm um nível de atenção acima da média e a neurociência confirma esse aspecto: resposta mais rápida aos estímulos inesperados e maior engajamento de atenção a esse estímulo. É possível afirmar com alta confiabilidade que a maior capacidade de atenção é uma característica distintiva de indivíduos superdotados.

 

MAIOR VELOCIDADE DE CONDUÇÃO DOS NERVOS 

As pesquisas psicométricas já consolidaram o menor tempo de reação nos superdotados. Pessoas de alto QI tiveram uma reação mais rápida no córtex visual do que a média, o que indica uma maior velocidade de condução no nervo óptico. A partir disso, foi lançada a hipótese dessa velocidade acontecer em todos os nervos cerebrais. Embora haja evidências promissoras, a maior velocidade de condução neural em todas as áreas cerebrais permanece como uma hipótese. 

 

MAIS RÁPIDA REORGANIZAÇÃO DOS PADRÕES DE ATIVAÇÃO PARA EXECUÇÃO DE TAREFAS 

Os estudos de maior ativação de áreas do cérebro e os do menor consumo energético geraram um conflito interessante: os estudos de ressonância magnética demonstram ativação de mais áreas do cérebro em atividades complexas, e os estudos de encefalograma demonstram menor atividade elétrica para o mesmo tipo de atividade. Em função disso, é possível afirmar que a maior inteligência não estaria apenas relacionada à maior conectividade entre as áreas, mas também a um sistema mais eficiente dessa conectividade. Ou seja, os indivíduos com superdotação ajustaram suas conexões mais rapidamente de forma a obter melhores resultados com o menor consumo de recursos.

 

O LADO ESQUECIDO DA SUPERDOTAÇÃO

Os estudos sobre superdotação, especialmente do cérebro desses neurodivergentes, até hoje estão limitados à “neurociência da inteligência”. Mesmo já se sabendo hoje que a superdotação não se resume à inteligência, pois implica um funcionamento neuropsicológico diferenciado, como já demonstraram, por exemplo, as pesquisas de Dabrowski e seus seguidores sobre as sobre-excitabilidades e seus efeitos, há quase seis décadas. 

 

“Por fim, é necessário ir além da inteligência. Superdotados não são apenas pessoas comuns com altíssima inteligência. Eles vivem o mundo de maneira diferente. A neurociência precisa acolher o superdotado no seu todo”, conclui a revisão.

 

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