Pessoas superdotadas têm mais propensão a transtornos psicológicos?
- A relação entre superdotação e saúde mental é um tema de debates científicos e sociais. Por conta do desconhecimento sobre a condição, frequentemente se associa superdotação a sofrimento psíquico, vulnerabilidade emocional e transtornos mentais. Mas a literatura científica apresenta resultados diferentes dessas opiniões.
- Uma revisão sistemática e meta-analítica, publicada em 2023, reuniu e analisou de forma crítica os estudos empíricos que investigaram níveis de ansiedade e depressão em pessoas superdotadas, em comparação com indivíduos de desenvolvimento típico. A revisão foi conduzida por Léo Duplenne, Béatrice Bourdin, Damien N. Fernandez, Geoffrey Blondelle e Alexandre Aubry, e está disponível na íntegra neste link.
- Foram analisadas pesquisas de 1995 a 2020, em inglês e francês, seguindo as diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses) para revisões sistemáticas, baseadas em um checklist de 27 itens e um fluxograma, essenciais para aumentar a transparência, rigor e reprodutibilidade de revisões sistemáticas e meta-análises.
A revisão considerou 32 estudos independentes, sendo 27 sobre ansiedade e 15 sobre depressão, totalizando 83 tamanhos de efeito (medida do quão grande ou importante é esse efeito na prática). Apenas entraram na seleção estudos que comparavam diretamente grupos superdotados com grupos controle equivalentes foram incluídos.
Em síntese, a revisão demonstrou que não há evidência científica robusta de que ter altas habilidades seja um fator de risco para ansiedade ou depressão. Ao contrário, quando diferenças aparecem, elas tendem a ser pequenas e favoráveis às pessoas com essa condição. Ou seja, pessoas superdotadas tendem a apresentar, em média, níveis ligeiramente menores de ansiedade do que seus pares não superdotados. Contudo, esse efeito não foi estatisticamente significativo, por serem altamente dependentes do contexto.
No caso da ansiedade, foi observada alta heterogeneidade entre os estudos, sugerindo que os resultados variam amplamente conforme o contexto, a idade dos participantes, os instrumentos utilizados e o tipo específico de ansiedade avaliado. De fato, o único moderador significativo encontrado foi o tipo de ansiedade:
- Pessoas superdotadas apresentaram menos ansiedade de desempenho, possivelmente relacionada ao melhor desempenho acadêmico.
- Já a ansiedade social mostrou níveis semelhantes entre superdotados e não superdotados, embora tenha sido menos investigada.
Em relação à idade, os dados sugerem que adolescentes superdotados podem apresentar um leve benefício emocional em comparação aos pares, enquanto os dados sobre adultos superdotados ainda são escassos e inconclusivos.
No caso da depressão, assim como na ansiedade, houve heterogeneidade considerável entre os estudos, e nenhuma variável moderadora (idade, gênero, tipo de identificação, contexto educacional ou país) explicou de forma consistente essa variação. Os intervalos de predição indicam que estudos futuros podem encontrar tanto efeitos positivos quanto negativos, dependendo do contexto analisado.
Pessoas superdotadas não apresentam maior propensão automática a transtornos emocionais. O sofrimento psíquico pode ocorrer, mas não é uma consequência inerente da superdotação. A saúde mental de pessoas superdotadas depende, sobretudo, das condições em que vivem, aprendem e se relacionam.
Segundo os autores, as dificuldades emocionais em pessoas com altas habilidades sugerem estar mais relacionadas a fatores ambientais e contextuais, como:
- experiências escolares inadequadas ou desafiadoras,
- ausência de identificação e apoio,
- bullying, eventos de vida adversos,
- conflitos familiares,
- dupla excepcionalidade (superdotação associada a transtornos).
As conclusões da revisão reforçam a importância de ambientes acolhedores, da identificação e de apoio emocional ao longo da vida. Os autores apontam ainda limitações importantes na literatura existente, como a falta de dados detalhados sobre contexto socioeconômico, a escassez de estudos com adultos superdotados e pouca investigação longitudinal. Sugerindo que a superdotação precisa ganhar mais espaço entre os estudos científicos!