Paradoxo da inteligência: quando as mentes mais brilhantes se sentem impostoras
- Ter diplomas, prêmios, um currículo que impressiona e mesmo assim acordar todo dia com a sensação de que, a qualquer momento, vão descobrir que você é uma fraude. A “síndrome de impostor(a)”, como é conhecida, acontece quando se tem competência, experiência e resultados reais, mas ainda assim a pessoa sente que é uma farsa ou que não merece a posição que ocupa.
- Trata-se de um perfil de funcionamento que dificulta o reconhecimento do próprio valor e impede a internalização de sucessos e elogios, levando a sentimentos de fraude e inadequação. Apesar de ter frequentemente evidências objetivas de competência, a pessoa não consegue incorporá-las à sua percepção de si mesma.
- Não bastam provas reais (prêmios, notas, promoções), reconhecimento profissional e uma história consistente de sucesso. Diante de um elogio, a mente tende a invalidá-lo, minimizando o êxito (“não foi difícil”) ou atribuindo-o à sorte e ao momento/circunstância, e não à competência. A pessoa se compara a outras que são “mais competentes”, ou, ainda, eleva a régua da autoexigência (aumentando o padrão de performance após um retorno positivo).
- Isso é particularmente relevante na superdotação, por uma série de razões. Primeiro, porque muitas pessoas com altas habilidades passam a vida subestimando aquilo que fazem “bem” (acima da média) justamente por parecer “natural” a elas. Principalmente aquelas pessoas que fizeram a descoberta tardia da superdotação ou, pior ainda, as que seguem sem identificação.
- Crescer sem a identificação ou sem o entendimento de sua condição gera situações que reforçam essa síndrome. Expressar pensamentos muito avançados ou fora da curva, desde a infância, frequentemente faz com que essas pessoas sejam incompreendidas por colegas, pais e/ou professores. E assim vão cultivando uma sensação de inadequação. Isso porque a identidade se constrói na interação com os outros. Como muitas vezes não encontram esse “espelho”, podem sentir que há algo de errado com elas. A descoberta do “funcionamento diferente” alivia essa sensação.
- Além disso, como, nas pessoas com altas habilidades, a resolução de problemas complexos e o aprendizado de novos conceitos acontecem de forma muito rápida e intuitiva, é comum que elas pensem que foi puro “golpe de sorte”. Na sua observação, o mesmo processo exige esforço árduo dos outros, portanto, deduzem inconscientemente que “não fizeram nada para merecer isso”. Assim, paradoxalmente, o talento acaba sendo interpretado como falta de mérito.
- Outro fator que intensifica essa percepção é o alto padrão interno que as pessoas superdotadas frequentemente estabelecem para si mesmas. O que, para os outros, é excepcional pode parecer, a elas, apenas “o mínimo que deveriam conseguir”. Entre aqueles que cresceram ouvindo que são “brilhantes” ou “promissores”, a cobrança interna é maior, tendo sido identificados ou não. Qualquer erro comum da vida adulta passa a ser visto como a prova cabal de que a sua inteligência era uma mentira.
- Isso pode ser exacerbado ainda pelo fato de que a identidade das pessoas com altas habilidades costuma ser excessivamente pautada nesses aspectos. Aí entram parcelas de perfeccionismo e do medo de errar, principalmente se a pessoa construiu parte de sua identidade em torno de ser “brilhante”. A crença internalizada é a de que “só sou amado(a) por ser inteligente”, o que intensifica a necessidade de performance. Cometer um erro ou não entregar o trabalho com excelência, portanto, pode ser ameaçador. O fracasso se torna uma ameaça à própria identidade. O erro passa a significar: “Talvez eu não seja aquilo que todos pensam que sou”.
- Soma-se a isso outro paradoxo: quanto maior a capacidade de perceber a complexidade de uma questão, mais a pessoa pode perceber o quanto ainda desconhece sobre o assunto. Enquanto isso, quem sabe muito pouco sobre um tema não tem repertório suficiente para perceber a própria ignorância, o que gera uma falsa sensação de domínio e autoconfiança (conhecido como Efeito Dunning-Kruger).
- Quem tem dúvidas do seu preparo, conhecimento ou mérito e se sente impostor não costuma conviver com falta de inteligência. O questionamento perturba quem enxerga a imensidão do que ainda não sabe. Daí também pode vir uma falsa sensação de incompetência e despreparo, particularmente em pessoas excessivamente autoexigentes e perfeccionistas, como as superdotadas.
- Ademais, a recorrente frustração vivida por essas pessoas, de não serem compreendidas ao expressar suas ideias, pode contribuir para o “efeito impostor”. Frequentemente, a dificuldade de comunicação decorre da assincronicidade característica da superdotação: o indivíduo percebe relações, nuances e implicações de um problema em um nível de complexidade superior ao de seus interlocutores naturais e, por isso, tende a partir de pressupostos, conexões e raciocínios que ainda não são compartilhados pelo grupo. O receptor precisaria de uma base prévia de conhecimento para absorver e integrar a informação, como explicitado pelo psicólogo Lev Vygotsky, no conceito da zona de desenvolvimento proximal.
- Com isso, falas “medianas”, mais convencionais, podem ser mais facilmente compreendidas pela maioria por estarem mais próximas do conhecimento consolidado; enquanto ideias muito inovadoras ou complexas podem não ser plenamente compreendidas por estarem além do repertório imediato da audiência. Com o tempo, essa experiência recorrente tende a gerar questionamentos sobre a própria capacidade e competência.
- Mas, embora a síndrome de impostor(a) possa ser uma experiência angustiante, com consequências importantes, ela não é uma doença ou transtorno psiquiátrico clínico. Ela é um padrão de pensamento e distorções cognitivas (interpretações equivocadas da realidade). Essa mente, portanto, pode ser “retreinada” para processar o sucesso de forma realista. É preciso usar a própria lógica e intelecto para desatar essa armadilha, reconhecer a sua capacidade e internalizar as conquistas alcançadas.
- Uma das estratégias disponíveis é adotar uma postura investigativa diante das próprias crenças. Em vez de tomar sentimentos de inadequação como verdades absolutas, vale a pena examinar os fatos objetivamente e reunir evidências concretas de competência. Conquistas acadêmicas e profissionais, desafios superados, feedbacks positivos e resultados alcançados constituem dados reais que podem ajudar a contrabalançar a tendência de enxergar apenas falhas ou limitações.
- Isso também ajudará em outra estratégia, que envolve acolher a própria vulnerabilidade. Em vez de responder à insegurança com mais exigência e crítica, é possível desenvolver uma atitude interna de compreensão e apoio. Quando pensamentos como “não sou capaz”, “não mereço estar aqui” ou “em breve descobrirão que sou uma fraude” surgem, pode-se responder com evidências concretas da realidade, oferecendo um contraponto racional e acolhedor a essas crenças automáticas.
- Também é importante aprendermos a questionar a autocrítica. Muitas pessoas são capazes de reconhecer facilmente o mérito das outras, mas têm dificuldade em fazer o mesmo consigo mesmas. Um exercício útil é perguntar: “Se outra pessoa tivesse exatamente a minha trajetória, minhas conquistas e minha experiência, eu duvidaria de sua competência?”. Frequentemente, a resposta revela que os critérios utilizados para avaliar a si próprio são muito mais severos do que aqueles aplicados aos demais.
- Além disso, reforçar para si mesmo(a) que a facilidade para resolver algo não diminui o valor da entrega, também é importante. A entrega das pessoas com altas habilidades sempre é o resultado de uma alta capacidade de processamento combinada ao repertório construído. E esse repertório é mérito seu! É preciso criar espaço para o reconhecimento das próprias qualidades.
- Reconhecer forças, talentos e realizações não é um ato de arrogância, mas de honestidade. Da mesma forma que é saudável admitir limitações, também é importante admitir competências. O objetivo não é cultivar uma visão idealizada de si mesmo, mas desenvolver uma percepção mais equilibrada, capaz de integrar tanto fragilidades quanto potencialidades. Quando essa integração ocorre, torna-se mais fácil abandonar a sensação de fraude e construir uma relação mais serena e realista consigo mesmo.
- E, quando aquele frio na barriga aparecer diante de um novo desafio, vale lembrar que o medo do desconhecido faz parte da experiência humana. No caso de pessoas superdotadas, ele pode ser potencializado pela tendência de enxergar a situação em toda a sua complexidade, antecipando possibilidades, obstáculos e consequências que nem sempre são percebidos pelos demais. Somado a um elevado senso de responsabilidade e ao desejo de entregar um trabalho de qualidade, esse olhar ampliado pode gerar insegurança. Paradoxalmente, porém, a dúvida nem sempre é sinal de incapacidade; muitas vezes, ela é justamente o reflexo da profundidade com que a pessoa compreende o desafio que tem diante de si.