Paradoxo da inteligência: quando as mentes mais brilhantes se sentem as maiores farsas
- Ter diplomas, prêmios, um currículo que impressiona e mesmo assim acordar todo dia com a sensação de que, a qualquer momento, vão descobrir que você é uma fraude. A “síndrome do impostor”, como é conhecida, acontece quando se tem competência, experiência e resultados reais, mas ainda assim a pessoa sente que é uma farsa ou que não merece a posição que ocupa. Nunca se é bom o suficiente!
- Trata-se de um perfil de funcionamento que dificulta o reconhecimento do próprio valor e impede a internalização de sucessos e elogios, levando a sentimentos de fraude e inadequação. Apesar de ter frequentemente evidências objetivas de competência, a pessoa não consegue incorporá-las à sua percepção de si mesma.
- Não bastam provas reais (prêmios, notas, promoções), reconhecimento profissional e uma história consistente de sucesso. Diante de um elogio, a mente tende a invalidá-lo, minimizando o êxito (“não foi difícil”); atribuindo à sorte ou ao momento/circunstância, e não à competência; comparando-se a outras pessoas que são “mais competentes”; ou elevando a régua da autoexigência (aumentando o padrão de performance após um retorno positivo).
- Isso é particularmente relevante na superdotação, por uma série de razões. Primeiro, porque muitas pessoas com altas habilidades passam a vida subestimando aquilo que fazem “bem” (acima da média) justamente por parecer “natural” a elas. Principalmente aquelas pessoas que fizeram a descoberta tardia da superdotação ou, pior ainda, as que seguem sem identificação.
- Crescer sem a identificação ou sem o entendimento de sua condição gera situações que reforçam essa síndrome. Expressar pensamentos muito avançados ou fora da curva, desde a infância, frequentemente faz com que essas pessoas sejam incompreendidas por colegas, pais e/ou professores. E assim vão cultivando uma sensação de inadequação. Isso porque a identidade se constrói na interação com os outros. Como muitas vezes não encontram esse “espelho”, podem sentir que há algo de errado com elas. A descoberta do “funcionamento diferente” alivia essa sensação.
- Além disso, como, nas pessoas com altas habilidades, a resolução de problemas complexos e o aprendizado de novos conceitos acontecem de forma muito rápida e intuitiva, é comum que elas pensem que foi puro “golpe de sorte”. Na sua observação, o mesmo processo exige esforço árduo dos outros, portanto, deduzem inconscientemente que “não fizeram nada para merecer isso”. Assim, paradoxalmente, o talento acaba sendo interpretado como falta de mérito.
- Outro fator que intensifica essa percepção é o alto padrão interno que as pessoas superdotadas frequentemente estabelecem para si mesmas. O que, para os outros, é excepcional pode parecer, a elas, apenas “o mínimo que deveriam conseguir”. Entre aqueles que cresceram ouvindo que são “brilhantes” ou “promissores”, a cobrança interna é maior, tendo sido identificados ou não. Qualquer erro comum da vida adulta passa a ser visto como a prova cabal de que a sua inteligência era uma mentira.
- Isso pode ser exacerbado ainda pelo fato de que a identidade das pessoas com altas habilidades costuma ser excessivamente pautada nesses aspectos. Aí entram parcelas de perfeccionismo e do medo de errar, principalmente se a pessoa construiu parte de sua identidade em torno de ser “brilhantes”. A crença internalizada é a de que “só sou amado(a) por ser inteligente”, o que intensifica a necessidade de performance. Cometer um erro ou não entregar o trabalho com excelência, portanto, pode ser ameaçador. O fracasso se torna uma ameaça à própria identidade. O erro passa a significar: “Talvez eu não seja aquilo que todos pensam que sou”.
- Soma-se a isso outro paradoxo: quanto maior a capacidade de perceber a complexidade de uma questão, mais a pessoa pode perceber o quanto ainda desconhece sobre o assunto. Enquanto isso, quem sabe muito pouco sobre um tema não tem repertório suficiente para perceber a própria ignorância, o que gera uma falsa sensação de domínio e autoconfiança (conhecido como Efeito Dunning-Kruger).
- Quem tem dúvidas do seu preparo, conhecimento ou mérito e se sente impostor não costuma conviver com falta de inteligência. O questionamento perturba quem enxerga a imensidão do que ainda não sabe. Daí também pode vir uma falsa sensação de incompetência e despreparo, particularmente em pessoas excessivamente autoexigentes e perfeccionistas, como as superdotadas.
- Por fim, a frustração de não ser compreendido ao expressar ideias complexas pode contribuir para o “efeito impostor”. O receptor precisa de uma base de conhecimento prévia para absorver a informação, como explica Vygotsky no conceito da zona de desenvolvimento proximal. Ideias muito disruptivas ou falas “medianas” podem ser mais facilmente compreendidas pela maioria por estarem mais próximas de seu conhecimento.
- A síndrome do impostor não é uma doença ou transtorno psiquiátrico clínico, mas sim um padrão de pensamentos e de distorções cognitivas (interpretações equivocadas da realidade). Essa mente, portanto, pode ser “retreinada” para processar o sucesso de forma realista. É preciso usar a própria lógica e intelecto para desatar essa armadilha, reconhecer o próprio potencial e internalizar as conquistas alcançadas.
- Reunir provas e evidências em arquivos digitais ou numa estante ajuda a consolidar a sensação de merecimento. Reforçar para si mesmo que a facilidade para resolver algo não diminui o valor da entrega, também é de grande importância. A entrega é o resultado de uma alta capacidade de processamento combinada ao repertório construído. O médico que enxerga o diagnóstico em cinco minutos, por exemplo, precisou acumular bagagem, manter os estudos e a prática em dia para chegar até ali.
- E, quando o frio na barriga bater diante de novos projetos, vale lembrar que o natural é sentir medo do desconhecido, especialmente quando se tem uma mente complexa que enxerga todas as variáveis e riscos envolvidos. Apesar de ser uma distorção da realidade, a síndrome do impostor talvez demonstre que a pessoa se importa com a qualidade do resultado e está comprometida com a entrega que deseja fazer.