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Motor de Rolls-Royce em chassi de Fusca: a assincronia na superdotação

A sensação de que o corpo e as emoções lutam para tentar acompanhar uma mente com potência elevada foi traduzida pelo psicólogo francês Jean-Charles Terrassier. O especialista em crianças com altas habilidades formulou o conceito de “dissincronia” para descrever um desenvolvimento desigual em pessoas superdotadas, em que impera a diferença entre o ritmo cognitivo, a maturação motora e a maturidade afetiva.


Essa dissincronia é mais evidente durante a infância e a adolescência, fases pontuadas por marcos de desenvolvimento relacionados às idades, mas seus desafios na vida adulta têm sido cada vez mais estudados. Ela se mostra com alguma frequência, por exemplo, na dificuldade de vínculo com pessoas da mesma faixa etária, uma vez que o desenvolvimento cognitivo costuma avançar muito mais rápido, permitindo o entendimento de ideias complexas e o desenvolvimento de reflexões profundas que aquelas pessoas com desenvolvimento padrão não acompanham ainda.


Apesar de estarem à frente na capacidade intelectual, de análise e reflexão, essas mesmas crianças tendem a continuar infantis no controle dos sentimentos, mantendo questões típicas da idade cronológica, experimentando reações emocionais que não acompanham seu nível de compreensão. As diferentes dimensões do desenvolvimento não necessariamente avançam no mesmo ritmo, sejam elas internas (diferenças entre os próprios domínios da pessoa) ou externas (o desencontro entre a pessoa e as expectativas do ambiente).

Imagem de Federico Velazco, na Unsplash.
Imagem de Federico Velazco, na Unsplash.
  • Nos adultos, essas questões internas e sociais não desaparecem, mas mudam de expressão. Enquanto Terrassier formulou esse conceito a partir do desenvolvimento infantil, o Grupo Columbus coloca o desenvolvimento “assíncrono”, como prefere definir, no centro da própria definição de superdotação. E a especialista Linda Silverman utiliza ambas as ideias de dissincronia e assincronia para compreender aspectos da experiência da superdotação ao longo da vida. A literatura específica sobre sua manifestação na idade adulta, porém, ainda é limitada.

  • Na vida adulta, a assincronia pode ficar menos visível — e justamente por isso mais difícil de reconhecer. A pessoa com altas habilidades pode compreender profundamente as consequências de uma escolha e ainda assim ter dificuldade para decidir. Pode ter enorme capacidade de trabalho e precisar de períodos intensos de recolhimento. Pode lidar com problemas extremamente complexos e, ao mesmo tempo, sentir-se vulnerável diante de situações aparentemente simples.

  • Se, na infância, a capacidade de compreender conceitos abstratos, refletir sobre questões complexas e elaborar raciocínios profundos pode gerar uma sensação de desencontro em interações sociais mais cotidianas, na vida adulta, essa diferença não desaparece. Muitos adultos com altas habilidades relatam sentimentos de inadequação, solidão intelectual ou dificuldade em encontrar interlocutores com interesses, profundidade de reflexão ou ritmo de processamento semelhantes aos seus. Com frequência, acabam estabelecendo vínculos mais significativos com pessoas de diferentes idades ou contextos, guiados sobretudo pela afinidade intelectual e emocional.

  • Esse descompasso também pode ser percebido pela diferença entre o ímpeto de “abraçar o mundo”, alimentado pela intensidade e amplitude de interesses, típicas da superdotação, e as limitações naturais do corpo humano (inclusive o cérebro), que precisa de descanso, ócio e recuperação. Quando a pessoa passa longos períodos tentando acompanhar todas as demandas que sua própria capacidade lhe convida a assumir, pode ultrapassar seus limites de repouso, recuperação e autorregulação emocional. O resultado pode ser exaustão e sofrimento, porque capacidade não é sinônimo de energia ilimitada.

  • Como gostam de dizer as pessoas superdotadas, “é como ter motor de Rolls-Royce funcionando dentro de um chassi de Fusca”. A ebulição mental é capaz de chegar a 100km/h em 5 segundos e de sustentar uma velocidade de 250 km/h, por longos períodos, mas sua estrutura física não aguenta esse ritmo.
Imagem de Joe Darams, na Unsplash.
Imagem de Joe Darams, na Unsplash.
  • Nessa configuração, o trajeto se mostra mais desafiador. Com frequência, sua capacidade de estabelecer conexões e antecipar possibilidades faz com que a pessoa superdotada enxergue caminhos antes que outras os percebam. Mas corre mais riscos de “atropelar” etapas, se não estiver bem atento, pode passar sem ver algumas placas e perder algumas saídas. Ao olhar os outros numa menor velocidade, podem ficar impacientes e frustrados, dificultando o trabalho em grupo, gerando ainda irritação e ansiedade. Afinal, quem vai mais rápido acha que o outro está “devagar”. Quem vai mais devagar, não entende o outro, acha que ele é “louco” por manter aquela velocidade.

  • E a combinação de aceleração, frustração, ansiedade e irritação frequentemente termina em esgotamento e burnouts. Além disso, essa discrepância pode gerar sensação de não pertencimento e desafios relacionados ao bem-estar emocional, evidenciando que a dissincronia permanece como um aspecto relevante ao longo de toda a vida, ainda que se manifeste de formas distintas daquelas observadas na infância e na adolescência.

  • Em última análise, compreender a assincronia é compreender que a superdotação não se resume a um desempenho excepcional, mas envolve uma experiência humana singular, marcada por ritmos internos nem sempre coincidentes. Por isso, a identificação da superdotação é tão relevante também na vida adulta: ela oferece linguagem para experiências antes incompreendidas, favorece a autorregulação e amplia as possibilidades de pertencimento.

  • A assincronia muda ao longo da vida. Algumas diferenças diminuem, outras se tornam menos relevantes e novas formas de descompasso podem aparecer. O desenvolvimento humano continua acontecendo, inclusive na superdotação. Reconhecer a superdotação não elimina os desencontros entre diferentes dimensões do desenvolvimento, mas oferece uma chave de compreensão sobre si mesmo. Permite abandonar a cobrança de funcionar em alta velocidade o tempo inteiro e respeitar limites, acolhendo suas vulnerabilidades e valorizando suas potencialidades.

  • Nesse sentido, a identificação da superdotação torna-se uma ferramenta fundamental para o bem-estar ao longo da vida. Ela favorece relações mais saudáveis consigo mesmo e com os outros, reduz sentimentos de inadequação e possibilita a construção de uma identidade mais integrada. Afinal, o objetivo não é fazer todas as partes de si correrem no mesmo ritmo, mas aprender a conviver em harmonia com os descompassos. Quando compreende sua própria forma de existir e de se desenvolver, a pessoa superdotada tem melhores condições de viver de maneira mais plena, em paz com seu motor de Rolls-Royce em chassi de Fusca e com seu lugar no mundo.

 

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