Efeito cascata: descoberta da superdotação em família
- Três anos atrás, superdotação era um tema praticamente desconhecido da família Gomide. Mas os filhos sempre vêm para mostrar um mundo novo aos pais. E, geralmente, são as mães que movem montanhas em busca da melhor forma de apoiar as crias para viverem neste mundo. Além de abraçarem a causa para melhorar o mundo que vão deixar para aqueles que virão depois delas.
- Este é o caso da jornalista Priscila Manni Gomide que descobriu as altas habilidades da filha, tornou-se ativista, escreveu livro infantil sobre o tema e criou um portal reunindo uma diversidade de especialistas reconhecidos na área. Até que descobriu nela mesma essa condição — e mesmo assim resistiu a acreditar no laudo, a princípio.
Tudo começou em 2022, com a filha caçula. Sara começou a se recusar a entrar na escola, aos sete anos de idade. Foram seis meses muito sofridos, em que ela travava na porta do colégio, chorava e falava do seu incômodo: “Por que eu sou diferente?”, “Eu quero ser igual às minhas amigas!”, “Mamãe, você queria que eu fosse diferente?”. Tudo isso chamou a atenção da mãe para algum funcionamento diverso.
Priscila decidiu chamar uma psicóloga comportamental para observar a filha na escola e em casa. O diagnóstico esperado era de Transtorno do Espectro Autista (TEA). A profissional acompanhou Sara por oito dias e fez algumas atividades dirigidas com ela. De entrada, descartou TEA e disse que sua hipótese era de superdotação. “Eu fiquei meio assim… Nossa! Mas isso é algo que interfere?”, confessa Priscila.
O próximo passo era passar por uma avaliação neuropsicológica. A psiquiatra indicada não entendia de altas habilidades e, depois de várias sessões — um processo bem caro —, não se chegou a nenhum diagnóstico. Ficou descartado o TEA e surgiu uma nova hipótese incerta: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mas isso não fechava para Priscila, que já estava lendo muita informação sobre altas habilidades e conhecia melhor que ninguém sua filha. “A Sara não tem nada de impulsiva. Ela pensa mil vezes antes de fazer qualquer coisa”, descreve.
“Eu cheguei na Dra. Denise Arantes Brero pelo Instagram, mas ela tinha uma fila de meses de espera. Eu estava muito exausta e meio desesperada, então pedi a ela indicações de outros profissionais especializados. Ela me passou a Dra. Natalie Banaskiwitz e a Ms. Domitila Miranda. A Natalie era quem tinha horário primeiro, e fizemos todo o processo. Quando eu peguei o laudo, veio a confirmação das altas habilidades. Falava muitas coisas sobre a Sara, e fazia muito sentido, explicava cada funcionamento dela.
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Então, eu postei um primeiro vídeo. Um desabafo, sabe? ‘Gente, é isso: minha filha tem altas habilidades/superdotação, isso é uma condição, a gente tem que olhar pra isso, por causa disso, disso e daquilo.’ Aquela coisa de jornalista, coloquei pra fora. Esse primeiro vídeo repercutiu muito, muita gente comentando, aí choveu mensagem pedindo ajuda. Eu não esperava isso. E eu não gosto de deixar as pessoas sem resposta, então passava horas respondendo. Acho que isso é uma característica forte da empatia. Como eu sofri muito pra chegar na identificação da minha filha, quando é mãe e pai que entra em contato comigo, me toca muito.
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Eu via a minha filha muito parecida com o meu marido e eu passei a falar isso pra ele. Ele começou a lembrar como foi quando criança. É muito louco quando se descobre um filho com superdotação, porque, ao ver as coisas que acontecem com ele, a gente vai voltando pra própria infância. Eu sugeri a ele fazer uma avaliação, mas ele estava resistente, até que uns três meses depois aceitou e fez com a Natalie também. Veio um laudo de altas habilidades para ele também. Pronto, pra mim estava resolvido: a superdotação vinha dele e ponto final.”
A partir daí, Priscila mergulhou no tema. Fez uma especialização em neurociência e depois uma em Educação para Superdotados e Talentosos, pela Universidade da Califórnia. Escreveu o livro infantil “Minha mente é um presente”, com Yelena Mendonça, uma das mães com quem passou a conversar depois de um pedido de ajuda. Começou a ser chamada para congressos, foi participar do programa “SuperPop”, de Luciana Gimenez, e lançou o portal o Gifted Brasil, sobre superdotação. Agora está se programando para fazer um mestrado com o professor Joseph Renzulli na Universidade de Connecticut (EUA), de forma presencial.
“O Gifted Brasil veio dessa coisa de eu não conseguir mais dar conta das pessoas que me procuravam. Peguei todas as informações que eu tinha — que são informações checadas e rechecadas com muitos especialistas que hoje são apoiadores do Gifted — e resolvi fazer um mapa pras pessoas localizarem o especialista em AH/SD mais próximo delas no Brasil. Só que vi que sozinha não ia conseguir e a Mensa já tinha um banco de dados muito bom, e o ConBraSD também. Aí eu chamei o Cadu Fonseca, que era presidente da Mensa na época, para fazer o portal comigo. O Gifted vem muito nesse sentido, de juntar grupos diferentes. Eu senti que precisava abrir o diálogo, já que não tem unanimidade nessa área.
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Bom, como disse meu marido, virou um trabalho. Mas eu tenho uma produtora que faz conteúdo para Warner, Veja, CNN, enfim. E eu estava com todo meu trabalho mais a superdotação. Daí me sobrecarreguei. Em junho do ano passado, eu tive um burnout muito sério. Uma crise de pânico que eu desassociei. Nossa, foi a pior coisa que eu já vivi. Foi horrível.
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Fui na Ms. Domitila Miranda, com quem já tinha uma boa relação, para investigar se tinha síndrome de pânico, porque desde sempre eu ficava criando muitos cenários catastróficos na minha cabeça, ou TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo], por eu ficar tão ‘noiada’ com essas mil coisas que podem acontecer. Daí ela virou pra mim e falou: ‘Eu vou investigar altas habilidades’. Eu falei que não tinha nada a ver, que isso vinha do meu marido, da mãe dele. Tínhamos feito toda a árvore genealógica da origem da superdotação até a Sara. E a Domitila foi firme: ‘Você não me escolheu para fazer sua avaliação? Então, eu decido também o que a gente tem que investigar. Então, vou investigar AH/SD’. Aceitei, mas tinha certeza absoluta que não tinha nada a ver.
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E olha como é louco como eu vivi essa síndrome do impostor: na minha cabeça, eu achava que ela queria que fosse superdotação porque ela gostava de mim, porque eu já falava do tema. Eu não me via mesmo. A devolutiva saiu em fevereiro: AH/SD e um transtorno de ansiedade, que eu já trato faz um tempo.
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A identificação veio como uma bomba. Primeiro você olha para trás e sente raiva. Você fala: ‘Nossa. Eu não acreditei no meu potencial. Por que que me colocaram nessas caixas? Podiam ter apostado em mim! Eu podia ter feito isso e aquilo diferente. Depois vem essa frustração, e daí vem uma crise de identidade: ‘Então quem eu sou? O que eu faço com isso?’ Acho que eu estou compreendendo que isso é um elemento de autoconhecimento, Um comportamento que me faz sofrer, porque eu não tive suporte na infância como eu dou para a Sara.”
Priscila agora está lidando com sua própria identificação e a inquietação cada vez maior de fazer cada vez mais para impactar a descoberta de mais crianças com altas habilidades.