Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

A maternidade das mulheres superdotadas: desafios além do comum

  • Tudo o que se experimenta na maternidade, que já é desafiador e exaustivo em qualquer contexto, é vivido de forma amplificada pelas mulheres superdotadas. Grande parte delas vive uma maternidade mais intensa, hiperconsciente e internamente ultraexigente.

 

  • Desde a gravidez, quando começam as mudanças internas e externas, os impactos da alteração de hormônios e o excesso de sensibilidade tendem a ser potencializados e sentidos ao extremo. 

 

  • Após o nascimento, à sobrecarga típica de uma mãe que cuida e protege os filhos soma-se sua percepção aguçada que permite captar nuances emocionais das crianças e do ambiente, o tempo todo. As exigências só aumentam: a análise constante de cenários, impactos emocionais e consequências futuras, tão presente em outras áreas da vida das mulheres com altas habilidades, torna-se ainda mais intensa no que se refere aos seres mais preciosos das suas vidas. 

Imagem de Sai de Silva, na Unsplash.
Imagem de Sai de Silva, na Unsplash.
  • Estabelece-se, ademais, um conflito entre significado e rotina: enquanto a mente busca profundidade, propósito e coerência, a maternidade exige repetição, praticidade e presença constante. Isso porque, para as mulheres superdotadas, a maternidade é uma experiência existencial e ética, muito além da cansativa rotina do dia a dia. 

 

  • Essas demandas práticas podem ser atropeladas pelo excesso de pensamento, reflexões existenciais constantes e seu interesse por aprender sempre mais sobre o desenvolvimento dos filhos. Muitas mães com altas habilidades relatam viver a maternidade em múltiplas camadas ao mesmo tempo, cuidando do presente enquanto antecipam problemas, analisam emoções, organizam cenários e absorvem estímulos sem pausa.

 

  • O risco  é que, como costumam funcionar em alta performance e perfeccionismo, e têm dificuldade de desligar, frequentemente só percebem o esgotamento quando já colapsaram. E essa exaustão é, na maioria das vezes, invisível! Embora cansadas, continuam pensando, cuidando, planejando e antecipando demandas futuras. 

 

  • Se mesmo cercadas de pessoas, a maioria das mães costuma se sentir emocionalmente isoladas, no caso das superdotadas essa sensação de solidão vai além — elas têm muita dificuldade de encontrar espaços de pertencimento. Quando buscam apoio na troca com outras mães, é comum se sentirem inadequadas entre elas, diante de questionamentos e sofrimentos que não encontram eco nas suas interlocutoras, ou, quando encontram, não são experimentados na mesma intensidade ou profundidade. Enquanto as mães típicas tendem a sentir culpa por não ”dar conta” do recado, as superdotadas frequentemente sentem culpa por acreditar que “poderiam fazer mais”.

 

  • Para completar, ao buscarem equilíbrio entre maternidade e vida pessoal, como todas as outras mães, frequentemente precisam administrar o conflito interno entre cuidado, propósito e identidade intelectual. Isso porque, a intensidade da maternidade pode sufocar projetos e o desejo de desenvolver seus múltiplos talentos e interesses. Se não se cuidarem, correm o risco de “desaparecerem” frente às demandas das crianças, por serem muito empáticas, e às expectativas sociais, usualmente conservadoras. Mais do que “dar conta”, enfrenta-se um desafio pessoal — acima dos patamares típicos — de preservar quem elas são

 

  • A preservação do “eu superdotado” na maternidade passa por dois elementos fundamentais: o reconhecimento de que a mulher não deixa de existir como indivíduo ao tornar-se mãe e a consciência da superdotação. Para mães com altas habilidades,esse primeiro elemento é ainda mais sensível: há uma intensidade emocional, intelectual e criativa que não desaparece diante das demandas do cuidado — apenas costuma ser silenciada. Preservar esse “eu” significa manter espaços de pensamento próprio, criação, autonomia e identidade para além da função materna

 

  • Significa permitir-se continuar aprendendo, produzindo, questionando, sonhando e existindo em complexidade, sem culpa por não caber integralmente no ideal de maternidade sacrificial — o que pode ser facilitado pela consciência da superdotação. Quando a mãe superdotada abandona completamente a si mesma, frequentemente surge exaustão profunda, sensação de vazio e desconexão interna; mas, quando consegue preservar partes essenciais de sua identidade, a maternidade tende a se tornar mais autêntica, sustentável e emocionalmente saudável

 

  • Portanto, quando a autenticidade da mulher superdotada é respeitada, por ela mesma e por seu entorno, a maternidade pode deixar de ser sinônimo de sobrecarga para se tornar uma experiência de sentido, integração e potência. Pode ser oportunidade de aplicar sua criatividade e sua sensibilidade para apoiar o crescimento de crianças mais autônomas e o desenvolvimento de pessoas com senso crítico, deixando grandes contribuições para o mundo.

 

****

Se você se interessa em aprofundar sua leitura sobre esse tema, recomendamos a leitura do livro “Deu Zebra! Descobrindo a superdotação” e do estudo de Susana Graciela Pérez Barrera Pérez e Soraia Napoleão Freitas: “A mulher com altas habilidades/superdotação: à procura de uma identidade”. 

Confira também dois episódios especiais sobre a maternidade da mulher superdotada no podcast “Altas Conversas Altas Habilidades”, da Dra. Denise Arantes Brero: 

 

0 0 votes
Classificação
Deixe aqui sua mensagem para as autoras
Notificar de
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments