Ela transcrevia histórias de superdotação quando reconheceu a sua própria
A jornalista uruguaia Ivy, radicada na Argentina desde os três anos de idade, encontrou a própria história dentro do material do livro “Deu Zebra! Descobrindo a superdotação”, quando ele ainda nem estava pronto. Antes de saber que era superdotada, ela transcreveu as entrevistas em espanhol e inglês que seriam incorporadas à obra. E foi nos relatos dos entrevistados que reconheceu, pela primeira vez, algo muito forte em si mesma, acendendo nela o alerta de que também podia ter altas habilidades.
“Desgravei uma entrevista e pensei: ‘Que interessante isso!’ Desgravei outra e pensei: ‘Olha que interessante!’ Mas, numa noite, lembro que já estava escurecendo, desgravei a entrevista de um psicólogo francês [Carlos Tinoco]. E foi algo muito louco, porque, enquanto eu lia o depoimento dele, uma coisa ressoou muito forte em mim. Como quando você descobre algo e uma luzinha acende, sabe? Era sobre o jeito como ele percebia as coisas.
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Lembro que ele disse: ‘Quando me falam de um veleiro atravessando o mar, eu sinto o vento, escuto as ondas, estou ali. Só de escutar a frase, eu me transporto para lá e sinto com o corpo inteiro’. Acho que o que mais me tocou foi a hipersensibilidade dele, a permeabilidade e a exacerbação dos sentidos. Lembro que, naquela noite, não consegui dormir. Foi muito forte perceber que havia alguma coisa ali.”
- Ivy ficou tão impactada com isso que decidiu fazer uma avaliação psicológica para altas habilidades. Longe de esclarecer qualquer coisa, a experiência inicial a fez se sentir pior. Ela chegou a desistir da busca, por um tempo. Só voltou a insistir, quando foi encaminhada a outra profissional.
“Tive duas sessões com aquela psicóloga e não gostei nada. Ela me fazia fazer testes que me faziam sentir uma idiota. Eu olhava para o que ela me dava e não conseguia fazer, e lembro que ela dizia: ‘Mas isso é uma bobagem, eu mesma resolvo’. E eu dizia: ‘Eu não estou vendo isso’. Não conseguia, ficava nervosa, me senti péssima.
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Com a Susana [Pérez Barrera; psicóloga responsável pela identificação e uma das maiores especialistas sul-americanas na área] foi outra coisa. Tivemos entrevistas, uma por semana, durante bastante tempo. Ela também me fez preencher um monte de formulários, e pediu que três pessoas do meu círculo, que me conhecessem bem, preenchessem também — meus dois filhos e um parceiro que eu tinha na época fizeram isso. E me pediu para escrever uma autobiografia, o que foi muito interessante para mim.
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No começo foi um alívio. Eu sempre perguntava para a minha psicóloga: ‘Mas isso é normal? Isso que acontece comigo é normal?’ E ela respondia: ‘Por que você quer saber se é normal? Acontece com você e pronto’. Só que eu sempre senti que havia alguma coisa a mais, algo estranho. Então, quando a Susana fez a identificação [em 2021], me deu alívio: ‘Muita coisa que acontece comigo tem a ver com isso’. Isso, no início. Depois, comecei a duvidar se aquilo estava certo, se era mesmo assim.
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É engraçado, porque eu não duvido da minha inteligência — sei que sou inteligente —, mas, em algumas coisas, sou muito burra. E acho que deixei isso de lado, por enquanto. Sinto que existe um potencial que precisa explodir, e não sei se ainda vai acontecer.”
- Na época da escola, o desconforto de Ivy tomou uma forma diferente da de alguns depoimentos reunidos no livro “Deu Zebra!”: em vez de esconder sua capacidade, ela competia abertamente para se destacar. Na faculdade de Comunicação Social, o padrão se repetiu: procurou ir o mais rápido possível, para não se entediar.
“Quando lia o material [entrevistas] do livro, também me identifiquei no sentido de que nunca fui uma criança problemática. Sempre me adaptei ao sistema escolar, e sempre fui muito bem. No ensino médio, briguei o tempo todo para ter a melhor média: eu tinha 9,98, e a melhor da turma tinha 9,99, e eu nunca consegui alcançá-la. Era como uma corrida. Mas, em certo momento, aqui na Argentina, tiraram as notas numéricas e passaram a usar somente ‘atingiu’ ou ‘não atingiu’. Foi um desestímulo enorme para mim. Pensei: ‘Como assim, não tem mais competição?’ Fiquei completamente desanimada, perdi a vontade de estudar, porque não tinha mais estímulo. Fiz a faculdade, ao mesmo tempo que trabalhava, mas fiz rápido, porque sabia que, se eu não fizesse rápido, ia me entediar. E, depois, não quis estudar mais.”
- Outro ponto de identificação com as histórias trazidas no livro foi a dificuldade de conviver com regras que não fazem sentido para ela.
“Tenho um problema grande para aceitar normas, regras. Grande mesmo. Ficou muito evidente na pandemia, porque havia um monte de regras pensadas para proteger a população, mas que eram muito contraditórias. Por exemplo, usar máscara para sair na rua. Mas na rua não tinha ninguém, então eu não tinha contato próximo com ninguém para me contagiar. Daí eu tirava a máscara para respirar e me questionavam por isso. É assim o tempo todo, todos os dias tenho problema com normas.”
- Por parte dos pais, havia um reconhecimento da sua inteligência, mas nada ligado à superdotação. Especialmente a relação com a própria mãe, para Ivy, foi marcada por um tipo de admiração que não chegava a ser compreensão em relação às altas habilidades. Já quando se tornou mãe, ela reconheceu, por meio do relato dos próprios filhos, um jeito de criar que fugiu do usual.
“Minha mãe era como se estivesse em outro planeta, de certa forma. Ela demonstrava sempre muita admiração. Sempre dizia que eu era inteligente, marcava isso bastante, mas de um lugar meio cego, como toda mãe é meio cega em relação aos filhos. Eu podia ter sido uma idiota, e mesmo assim ela ia achar que eu era inteligente.
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Pelo relato dos meus filhos, que já são grandes [hoje com 21 e 24 anos], acho que houve muita imaginação na forma como criei os dois. Acho que aconteceu bastante o tal ‘fora da caixa’: no tipo de brincadeira, nos estímulos, nas viagens, no jeito de mostrar o mundo para eles. Na hora, eu não percebia que era assim; foi quando eles começaram a se lembrar de coisas que fui me dando conta.”
- Para Ivy, a mesma sensibilidade que a aproxima do mundo também pode ser o que a afasta de explorar plenamente seu potencial intelectual. Passados os anos do processo de identificação, ela segue em terapia, mas sente que ainda não encontrou seu ponto alto.
“Depois da identificação, investiguei, li o que a Susana me indicou, procurei coisas on-line, mas não li outro livro, e depois deixei isso de lado. Terapia, sim — sempre, a vida inteira. Faço pausas, mas volto, porque preciso de alguém para escutar tudo isso. Não posso fazer isso com meus amigos, porque enlouqueço eles.
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Acho que existem características que podem até ser contraditórias entre si. Por exemplo, a permeabilidade emocional às vezes atenta contra o desenvolvimento intelectual. Quando você está tão empática, tão à flor da pele o tempo todo, tão receptiva, muita dessa energia se perde nisso, e não sobra para desenvolver profissional ou intelectualmente esse potencial. Imagina algo como um núcleo de muita força, de muita luz, envolto por algo mais duro, de proteção. É como se a inteligência também servisse para proteger essa alta sensibilidade. E isso desgasta. Muitos recursos são gastos nisso também.”
- Jornalista de formação, Ivy hoje trabalha como “ghostwriter” e diz pensar cada vez mais em literatura como um caminho para se reinventar fora do jornalismo tradicional. Anos depois de ter ajudado a transcrever as entrevistas que comporiam o livro “Deu Zebra”, ela deseja agora aproximar essa mesma obra de outras leitoras de língua espanhola. “Vocês vão traduzir o livro para o espanhol? Eu adoraria traduzir”, diz.