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"Você é demais": o peso de ser mulher superdotada no amor patriarcal

  • Tem uma assimetria que poucos falam quando o assunto é superdotação e relacionamentos: o homem superdotado costuma ser admirado por isso, já a mulher superdotada gera desconforto.
 
  • Enquanto eles são vistos como estimulantes e ótimos partidos; elas são vistas como “geradoras de problema”, “complicadas demais”, “difíceis de lidar”. A mesma inteligência que eleva os homens é motivo para rebaixar as mulheres. São dois pesos e duas medidas. São duas versões da expressão “você é demais!”, para eles, para bem e, para elas, para mal. 
Imagem de Lindsey Lamont, na Unsplash.
Imagem de Lindsey Lamont, na Unsplash.
  • Nossa sociedade ainda é profundamente moldada pelo sexismo, que impõe um conjunto de estereótipos e expectativas silenciosas sobre como a mulher deve ser: dócil, discreta, servil, modesta, compreensiva, “menos” do que os homens. A isso tem-se chamado “feminilidade tóxica”, uma versão rígida e forçada do feminino, que pressiona a mulher a se adaptar aos padrões sociais, mesmo contra sua própria natureza e vontade, a colocar constantemente as necessidades dos outros acima das suas, a esconder ambição, a sufocar opiniões, emoções e desejos, para ser aceita e amada.
 
  • A mulher superdotada quebra esse script em praticamente todas as frentes. Ela questiona onde deveria concordar. Ela lidera onde deveria seguir. Ela enxerga inconsistências que outros preferem não ver, e evidencia isso, até mesmo inadvertidamente. Numa relação patriarcal, essa autenticidade incomoda e é percebida como ameaça, já que, desde meninas, são estimuladas a manter comportamentos para agradar os outros, evitar conflitos, cuidar e se retrair. 
 
  • Não há nada de negativo com delicadeza, elegância, cuidado ou maternidade, enquanto se trata de uma escolha pessoal. O problema surge quando essas características são impostas como obrigação ou quando limitam a liberdade, a autonomia e a expressão individual. E, no caso das meninas e mulheres superdotadas, liberdade, autonomia e individuação não são apenas valores desejáveis; são necessidades profundas, inseparáveis de sua identidade e indispensáveis para uma vida autêntica. Quando essas dimensões são reprimidas, não se limita apenas o comportamento, mas sua própria existência.
 
  • Imi Lo, psicóloga especializada em superdotação na fase adulta, cita pesquisas que revelam um padrão preocupante: 65% das meninas superdotadas escondem suas capacidades na escola para não parecerem diferentes das e dos colegas. Entre os meninos superdotados, esse índice cai para 15% (*1).
 
  • Ou seja, desde cedo, meninas aprendem que ser “brilhante demais” é socialmente perigoso. Aprendem a se esconder. Muitas carregam esse silêncio aprendido para a vida adulta, para o trabalho e, naturalmente, para os relacionamentos amorosos.
 
  • Estudos também mostram que, à medida que crescem, meninas superdotadas perdem confiança em si mesmas em ritmo três vezes maior do que meninos (*2). Alunas que chegaram ao topo da turma, ao entrar na faculdade, passam a atribuir seus resultados à sorte. Elas têm dificuldade de reconhecer seus talentos. É a síndrome da impostora em ação, alimentada por um ambiente que ensina mulheres competentes a duvidarem de si.
Imagem de Guilherme Stecanella, na Unsplash.
Imagem de Guilherme Stecanella, na Unsplash.

O preço da autenticidade

  • Nos relacionamentos, a feminilidade tóxica se manifesta de formas sutis mas corrosivas. A mulher superdotada segura o raciocínio para não intimidar, deixa o parceiro “ganhar” o debate para não criar clima, diminui suas realizações para que ele não se sinta menor e aprende, com o tempo, a ocupar menos espaço.
     
  • O problema é que essa estratégia de sobrevivência afetiva tem um custo alto: ela apaga com seu próprio eu. A mulher que passou anos traduzindo seus pensamentos para um volume mais “palatável” (aos olhos dos outros) perde contato com sua própria voz. Deixa de saber, com clareza, o que pensa e o que quer, porque treinou demais seu instinto de autocensura.
  • Imi Lo é cortante quanto a isso: relacionamentos que exigem esse sacrifício tratam mais sobre performance do que sobre conexão entre duas pessoas. Aparecer inteira com a intensidade, a inteligência e as perguntas incômodas que povoam internamente essa mulher afasta parceiros, porque eles não estão preparados para isso. E esse afastamento, vivido repetidamente, pode parecer confirmação de que há algo errado com ela.

     

  • A mulher superdotada que encontra aquele alguém que a vê como igual, que cresce com ela e não se sente ameaçado por ela, descobre que o amor não precisa custar sua identidade. Mas chegar até esse amor, numa cultura que ainda prefere mulheres menores, exige uma dose enorme de coragem: a coragem de não se apagar. E também muita disposição para ser duplamente diferentes.


Para mais informações sobre esse tema, leia o original de Imi Lo: eggshelltherapy.com/gifted-women


Imi Lo é uma cidadã do mundo, com formação na Austrália, Inglaterra, Hong Kong, Taiwan e Estados Unidos. Psicóloga com especialização em Saúde Mental, Budismo e Culturais Globais, tem três livros publicados “Emotional Sensitivity and Intensity” (2018, traduzido em oito línguas), “The Gift of Intensity” (2021) e “The Gift of Empathy” (2025), pela Editora Hachette, nenhum deles foi publicado em português ainda.

 

 

*1 Olszewski, P., Kulieke, M., & Buescher, T. (1987). “The Influence of the Family Environment on the Development of Talent: A Literature Review.” Journal for the Education of the Gifted.
*2 Relatório de pesquisa intitulado Shortchanging Girls, Shortchanging America

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